Voltar a querer viajar


A viagem de comboio entre Flåm e Myrdal, marcou-me para sempre. Paisagens de cortar a respiração, silêncio imenso e uma beleza quase irreal, num país verdadeiramente extraordinário. 

Desde que me divorciei, nunca mais tive vontade de planear uma viagem. Nunca mais saí do país e as poucas escapadinhas que fui fazendo nasceram quase sempre do improviso, mais por necessidade de pausa do que por desejo de antecipação.

Com o passar do tempo, os miúdos cresceram, ganharam autonomia e deixaram naturalmente de acompanhar. E eu comeceço a perceber que me falta algo que sempre me fez bem: o acto de programar uma viagem. Escolher um destino, imaginar paisagens, pensar percursos, antecipar sensações. Há qualquer coisa de profundamente reparador nesse processo. É como se viajássemos duas vezes. A primeira quando planeamos, sonhamos e visualizamos. A segunda quando, finalmente, concretizamos.

Talvez por isso planear uma viagem se pareça tanto com reconstruir a vida depois de um divórcio. 
Primeiro desenhamos um mapa interno. O que quero, para onde vou, o que deixo para trás. Depois surgem as dúvidas, os ajustes, as mudanças de rota. E, por fim, a concretização. Nem sempre exatamente como idealizámos, mas real, possível e nossa.

Hoje sinto que voltar a planear uma viagem é mais do que escolher um destino. É um acto de fé silencioso. É confiar que a vida continua a querer revelar-se, passo a passo, mesmo depois das quebras. Quando imagino um caminho, o universo responde com pequenos sinais. E quando avanço, ainda que devagar, percebo que já estou a viajar. Porque há viagens que começam muito antes do primeiro passo. Começam no momento em que a alma volta a acreditar que merece ir.

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