Perdoar no meu tempo


Aprendi que perdoar não é um gesto imediato. Não é uma frase bonita para aliviar a consciência, nem um botão que se carrega para apagar o que doeu. Perdoar é um processo. E, como todos os processos honestos, exige tempo, silêncio e coragem.
Quando algo me magoa, eu preciso primeiro de compreender o que senti. Preciso de atravessar a confusão, a desilusão, a raiva que às vezes aparece disfarçada de força. Preciso de escutar o corpo, as emoções, as perguntas que ficam a ecoar. Só depois vem a cura. Só depois consigo olhar para o que aconteceu sem o peso da ferida aberta.
O perdão não nasce da pressa. Nasce quando a ferida já não governa as decisões. Quando a memória deixa de doer ao ser tocada. Quando a paz interna volta a ocupar o centro.
Mas há uma verdade que não ignoro: mesmo quando se perdoa, nem tudo volta a ser como antes. O perdão liberta, mas não apaga. Não reescreve a história. Não devolve automaticamente a confiança, nem reconstrói, por magia, o lugar que alguém ocupava na nossa vida.
Perdoar não significa esquecer. Significa escolher não carregar o peso do ressentimento. Significa libertar espaço dentro de mim para continuar a caminhar mais leve, mais lúcida, mais inteira.
Também aprendi a respeitar o meu próprio tempo. A não me forçar a ser grande quando ainda estou a cuidar de uma parte frágil. A não usar o perdão como fuga à dor, mas como consequência da cura.
Há relações que, depois do perdão, encontram uma nova forma de existir. Outras apenas encontram um lugar de paz à distância. E isso também é maturidade. Nem tudo precisa de regressar para ser honrado.
Hoje sei: perdoo, sim. Mas no meu tempo.
Primeiro processo. Depois curo. E só então libero.
E mesmo assim, nunca mais é exatamente igual.
É diferente. Mais consciente. Mais verdadeiro. Mais alinhado com aquilo que aprendi a proteger: a minha paz.

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