Menopausa: quando o silêncio sobe ao palco
Há fases da vida que ninguém nos explica.
Fui ao teatro e percebi que a menopausa não é o fim de nada.
É apenas o início do segundo ato.
Fui ver a peça Menopausa, protagonizada por Cláudia Raia. Fui com curiosidade, mas saí de lá com algo maior do que entretenimento. Saí com consciência.
Consciência de uma realidade que atravessa a vida de todas as mulheres e sobre a qual, estranhamente, quase ninguém fala.
A menopausa.
Ao longo da vida ouvimos falar de tantas coisas: da primeira menstruação, da gravidez, do parto, da amamentação. Existem livros, cursos, conversas entre amigas, conselhos de mães e avós. Existe quase um ritual coletivo em torno dessas fases.
Mas quando chega a menopausa… instala-se um silêncio estranho.
Não se fala.
Os médicos raramente explicam.
Os enfermeiros quase não abordam.
Os farmacêuticos limitam-se a vender soluções.
As mães e as avós, muitas vezes, também não contam as suas histórias.
E de repente uma mulher chega a essa fase da vida quase sem mapa.
Começam mudanças no corpo, alterações de humor, calorões, noites mal dormidas, inchaço, cansaço, transformação na energia, no desejo, na forma como olhamos para nós próprias. E muitas vezes pensamos: o que se está a passar comigo?
O mais surpreendente é perceber que não é falta de informação científica. Há estudos, há conhecimento médico, há investigação. O que falta é conversa.
Falta normalizar.
Falta dizer às mulheres que isto faz parte da vida. Que não é uma falha do corpo, nem um defeito, nem um declínio da feminilidade.
A peça que assisti faz precisamente isso: tira a menopausa do silêncio e coloca-a no palco, com luz, humor e verdade.
E de repente aquilo que era quase um tabu transforma-se numa experiência partilhada. A plateia ri, identifica-se, reconhece-se. Há ali um sentimento coletivo muito curioso: alívio.
Porque perceber o que se está a viver é profundamente empoderador.
Quando damos nome às coisas, elas deixam de ser monstros invisíveis.
No final da peça, Cláudia Raia abriu um momento de diálogo com o público. Um espaço simples, direto, quase íntimo.
E foi aí que surgiu uma expressão que ficou a ecoar dentro de mim.
A mulher entra no segundo ato da sua vida.
E essa ideia fez-me vibrar por dentro.
Porque no teatro, o segundo ato não é o fim da história. Muitas vezes é quando tudo ganha mais profundidade, mais verdade, mais consciência.
Talvez a menopausa seja exatamente isso.
Não um fim, mas uma mudança de palco.
Uma fase onde a experiência fala mais alto, onde a liberdade cresce e onde já não precisamos de provar tanto aos outros.
Talvez seja o momento em que começamos, finalmente, a viver mais alinhadas com aquilo que somos.
Fui ao teatro ver uma peça. Mas, na verdade, saí de lá a perceber que muitas de nós estamos apenas a preparar-nos para entrar no segundo ato da nossa própria vida.
E talvez esse ato seja, afinal, o mais poderoso de todos.
A minha experiência
Falar de menopausa, para mim, deixou de ser um conceito distante e passou a ser um processo vivido na primeira pessoa. E a verdade é que ninguém nos prepara. Não há conversas, não há explicações claras, não há aviso para o turbilhão físico e emocional que pode surgir. Há dias de cansaço sem motivo, alterações de humor que nem sempre se compreendem, um corpo que parece falar outra linguagem… e um silêncio enorme à volta disto tudo.
E depois há o corpo a surpreender-nos de formas inesperadas. Dores que aparecem sem aviso e mudam de lugar como se tivessem vontade própria. Hoje acordo com uma dor no cotovelo, amanhã já passou e sinto uma dor no tornozelo. E há dores que ficam. No meu caso, os joelhos começaram a limitar os meus movimentos, a lembrar-me que o corpo precisa de outro tipo de atenção, de mais cuidado, de mais respeito.
Mas talvez o mais duro tenha sido o cansaço extremo. Houve uma fase em que passei quase dois meses sem dormir uma noite de jeito. Duas noites seguidas mal dormidas já nos deixam frágeis, imagina semanas. Cheguei a um ponto em que pensei que já não conseguia aguentar mais. E quando o corpo não descansa, tudo o resto abana.
As emoções também ganham outra intensidade. Há uma espécie de explosão interna, mudanças de humor que surgem sem pedir licença, dias em que nos sentimos completamente desalinhadas de nós próprias. E isso assusta. Porque não fomos ensinadas a reconhecer isto como parte de um processo natural.
E há algo importante que também precisamos de compreender. A menopausa não tem uma data certa, não é um momento que simplesmente acontece de um dia para o outro. No meu caso, iniciei a perimenopausa no final dos 46 anos. A menopausa ainda nem sequer foi oficialmente decretada, porque, por definição, só acontece após 12 meses consecutivos sem menstruação. Mas o que muitas vezes não se diz é que esta fase de transição pode durar anos. No meu caso, já dura há quase dois.
E há mudanças que nos desafiam profundamente, como o aumento de peso sem explicação aparente. Fazemos o mesmo, comemos o mesmo, e ainda assim o corpo responde de forma diferente. Chegamos a acreditar que até a própria água ou o ar que respiramos nos engorda. E isso mexe connosco, com a nossa imagem, com a nossa confiança.
Senti, muitas vezes, que estava sozinha neste caminho. Como se fosse algo que se vive em segredo, quase em surdina. Mas não devia ser assim. A menopausa não é um fim, nem uma perda, é uma transição. Um segundo ato, como ouvi recentemente, e que hoje faz tanto sentido para mim. Um convite a conhecer-me de outra forma, a respeitar o meu ritmo e a redescobrir a minha força.
E também um convite à ação. A perceber que precisamos de ajustar rotinas, de cuidar do corpo de forma consciente, de integrar o exercício físico como uma necessidade e não como uma opção. Porque é isso que nos ajuda a equilibrar, a ganhar energia, a lidar melhor com tudo aquilo que esta fase traz.
Hoje escolho falar sobre isto. Porque sei que há muitas mulheres a sentir o mesmo, e porque nenhuma de nós devia passar por isto em silêncio.
Um abraço sentido a todas as mulheres. Porque, sendo todas diferentes, há tanto que nos une. Em cada fase da nossa vida somos chamadas a adaptar, a conhecer profundamente o nosso corpo e a reinventar-nos. E quando começamos a compreender o que nos acontece, mesmo com medo, tudo se torna mais leve.
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