Banho de Realidade


Há dias em que saímos de casa a pensar que vamos apenas trabalhar, entregar encomendas, levantar outras e espairecer um pouco. E nisto, vem a vida e senta-se connosco à mesa...

Há cerca de cinco anos conheci uma pessoa de quem me tornei amiga. A vida fez com que os nossos caminhos continuassem a cruzar-se, mesmo sem falarmos regularmente. Daquelas amizades tranquilas, que não precisam de contacto constante para permanecerem verdadeiras.

Fomos almoçar!

Durante a conversa, levou-me a conhecer alguém que trabalha no restaurante onde estávamos. Um homem simples, sereno, de sorriso discreto. Se eu não tivesse ouvido a sua história, jamais imaginaria o caminho que tinha percorrido.

Contou-nos que, durante muitos anos, viveu preso ao alcoolismo. Perdeu muito. E houve momentos em que a dor era tão grande que tentou terminar com a própria vida. Mais do que uma vez.

Enquanto o ouvia, não senti pena. Senti respeito!

Porque estava à minha frente um homem que tinha atravessado tempestades que muitos de nós nem conseguimos imaginar e que, ainda assim, continuava ali. De pé. A trabalhar. A cozinhar. A viver.

Mas houve um detalhe que me emocionou ainda mais.
Ao longo desses anos difíceis, houve alguém que nunca lhe virou as costas. Alguém que, a qualquer hora do dia ou da noite, o ia buscar quando ele já não conseguia encontrar o caminho para casa. Alguém que não julgava, não fazia discursos, não desistia dele.
Limitava-se a estar!

E foi então que percebi que a história daquele almoço não era apenas sobre um homem que conseguiu sobreviver. Era também sobre outro homem que escolheu nunca abandonar um amigo.

Vivemos tão preocupados com aquilo que nos falta. Com as contas para pagar, os problemas do dia a dia, os planos que não correram como esperávamos. E, de repente, uma conversa destas coloca tudo no lugar certo.
Não porque os nossos problemas deixem de existir.

Mas porque nos recorda que a vida muda depressa. Que ninguém está imune às quedas. E que, muitas vezes, aquilo que salva uma pessoa não é uma solução milagrosa. É outra pessoa.

Regressei a casa com uma certeza ainda maior.

No fim de tudo, aquilo que realmente fica não é o dinheiro que ganhámos, nem os cargos que ocupámos, nem os bens que acumulámos.

O que fica é a forma como passámos pela vida dos outros.

Se fomos capazes de estender uma mão.

Se fomos capazes de ouvir.

Se fomos capazes de ficar quando era mais fácil ir embora.

Talvez seja esse o verdadeiro propósito da vida.

Não sermos perfeitos.

Mas sermos, simplesmente, uma boa pessoa. 

As boas pessoas estão fora de moda. Quase todos possuem a nobre arte do "achismo". Julgar e apontar o dedo é tão mais fácil que estender a mão e dizer eu estou aqui!

Porque nunca sabemos quando um gesto nosso será a razão pela qual alguém encontra coragem para viver mais um dia!

Grata, por perceber nestes pequenos detalhes, o caminho!... o meu, o teu, o nosso caminho!!

Comentários

  1. ... simplesmente acreditar-mos que existem pessoas assim, beijinhos e a mais pura gratidão!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Familia que permanece

Quando o amor acaba, o respeito não tem de morrer

Fazer acontecer