Carta à menina que (sempre) fui...
Querida Carla,
Hoje escrevo-te do futuro.
Tenho 48 anos e trago comigo todas as versões de nós que existiram pelo caminho. Mas sabes uma coisa? A minha preferida continua a ser tu.
A menina que corria sem medo, que inventava brincadeiras quando não tinha companhia, que transformava o pouco em muito e que encontrava aventuras onde os outros viam apenas um dia igual ao anterior.
Sempre foste traquina.
Sempre gostaste de desafiar os teus próprios limites. Nunca esperaste que alguém te dissesse "podes". Experimentavas primeiro e descobrias depois.
Tinhas uma criatividade que transformava a solidão em brincadeira e uma imaginação capaz de construir mundos inteiros.
Sei que a infância nem sempre foi leve.
Houve momentos em que precisaste de crescer antes do tempo.
Houve palavras que ficaram por dizer, abraços que fizeram falta e dias em que te sentiste mais sozinha do que uma criança deveria sentir.
Mas sabes o que mais me impressiona quando olho para trás?
Nada disso conseguiu quebrar-te!
Nunca deixaste de acreditar nas tuas convicções. Nunca cedeste só para agradar aos outros. Havia em ti uma força silenciosa que nem tu conhecias. Essa força acompanhou-te durante toda a vida.
Queria dizer-te que um dia vais descobrir que a tua sensibilidade não é um defeito. Durante muitos anos vais tentar escondê-la, convencida de que sentir demasiado é uma fraqueza. Só muito mais tarde perceberás que é precisamente essa capacidade de sentir que te permitirá tocar tantas vidas.
Vais amar muito. Algumas pessoas ficarão. Outras partirão sem explicação.
Haverá dias em que pensarás que o problema és tu. Não acredites nisso! Nem todas as pessoas entram na nossa vida para ficar. Algumas chegam apenas para nos ensinar.
Também vais aprender que dizer "não" não faz de ti uma má pessoa. Faz de ti alguém que finalmente começou a respeitar-se.
Sabes aqueles sonhos que ainda nem consegues imaginar? Alguns vão realizar-se. Outros vão mudar de forma. Vais criar projetos teus, trabalhar até à exaustão, cair muitas vezes... mas vais levantar-te sempre.
E um dia vais descobrir quem és.
Não porque alguém te mostrou o caminho, mas porque decidiste procurá-lo sozinha.
Vais caminhar por serras, apaixonar-te pela lua, parar o carro só para fotografar um pôr do sol e perceber que a felicidade vive muitas vezes nesses instantes pequenos, quase invisíveis.
Continuas a desafiar-te. Continuas a criar onde muitos só veem dificuldades. Continuas a acreditar nas pessoas, mesmo depois de algumas desilusões. E continuas a ter uma coragem que nem sempre reconheces em ti.
Nem sempre ganhámos.
Nem sempre acertámos.
Mas nunca nos vendemos.
Nunca deixámos de ser fiéis àquilo em que acreditamos.
Depois de tantos anos a cuidar dos outros, vais finalmente aprender a cuidar de ti. E acredita... esse será um dos momentos mais importantes da tua vida.
Hoje olho para ti com uma ternura imensa.
Não porque tenhas sido uma menina perfeita.
Mas porque foste uma menina inteira. Curiosa, irreverente, criativa, determinada.
A vida tentou moldar-te muitas vezes, mas nunca conseguiu apagar a tua essência.
Obrigada por nunca teres desistido de nós.
Prometo continuar a cuidar dos teus sonhos, porque, na verdade, ainda são os mesmos.
E quando, por vezes, eu duvidar da mulher em que me tornei, basta fechar os olhos e lembrar-me de ti.
A menina, continua aqui, a habitar o meu coração...
E continua a ensinar-me que a liberdade começa sempre dentro de nós.
Com todo o amor e carinho,
A Carla de 48 anos
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