O milagre da minha vida



Hoje dei por mim a falar, outra vez, no professor Manuel Quartilho.
Falo nele muitas vezes.
Falo nele quando encontro alguém que está a passar por um momento de fragilidade. Falo nele quando tento explicar que podemos ter pessoas a ajudar-nos, médicos, família, amigos, mas há uma parte do caminho que ninguém consegue fazer por nós. Falo nele quando digo que precisamos de olhar para os recursos que temos, perceber o que podemos fazer com eles e começar por algum lado.
Hoje voltei a falar nele e fiquei com uma enorme necessidade de contar esta história.
A história do milagre da minha vida.

Antes de tudo isto, eu era feliz.
Não digo isto com a distância de quem embeleza o passado. Era mesmo.
Era uma rapariga cheia de projetos, com uma enorme vontade de crescer profissionalmente e pessoalmente. Era muito ligada à minha família, aos meus filhos, ao meu marido. E era profundamente dedicada ao meu trabalho.
Talvez demasiado.
Eu pensava muito no trabalho. Vivia muito o trabalho. Entregava-me intensamente e fazia-o porque gostava verdadeiramente daquilo que fazia.
Profissionalmente sentia-me realizada.
Confiavam em mim e, à medida que o tempo passava, confiavam cada vez mais. Davam-me novas responsabilidades, novos desafios, projetos maiores. E eu correspondia.
Sentia que aquele era o meu lugar.
Achava que tinha encontrado o trabalho da minha vida.
Mais do que isso: achava que tinha aquele trabalho para a vida inteira.

Depois nasceu o Henrique.
E eu queria muito viver intensamente aquela maternidade.
Com o meu filho mais velho não tinha conseguido vivê-la da mesma forma. Tinha trabalhado a meio tempo e, desta vez, queria permitir-me estar ali. Queria viver aquele bebé, estar presente, amamentar, ter tempo.
O Henrique, porém, era um bebé extremamente chorão.
Chorava muito. Tanto que chegou a desenvolver uma hérnia umbilical. Chorava em casa, chorava quando saíamos, chorava no carrinho quando eu tentava simplesmente dar um passeio com ele.
Hoje, olhando para trás, consigo perceber o desgaste em que eu já vivia.
Na altura, não...
Na altura, eu continuava.
Entretanto apareceu a doença do meu patrão.
Eu conhecia-o suficientemente bem para perceber que aquilo podia ser muito sério. Já tinha observado algumas condicionantes anteriormente e, quando a doença apareceu, alguma coisa dentro de mim percebeu que não seria simples.
Infelizmente, essa sensação viria a confirmar-se.
E a vida que naquele momento deveria estar concentrada num bebé e numa licença de maternidade voltou a ser puxada violentamente para o trabalho.
Tive necessidade de regressar mais cedo.
Renunciei a parte da minha licença de maternidade, tratei de tudo junto da Segurança Social e voltei ao trabalho.
Mas havia uma coisa da qual não queria abdicar: queria continuar a amamentar o Henrique exclusivamente com leite materno até aos seis meses.
E consegui!
Com muita luta. Com muitas dores. Com uma logística difícil. Mas consegui...
Talvez nessa altura eu ainda acreditasse que conseguir era simplesmente aquilo que eu fazia.
Eu conseguia.
Conseguia ser mãe.
Conseguia trabalhar.
Conseguia amamentar.
Conseguia suportar o medo.
Conseguia resolver.
Conseguia tudo.
Até deixar de conseguir.
A dinâmica da fábrica começou a alterar-se. Foram tomadas decisões que, na minha perspetiva, estavam muito longe de ser as decisões certas e eu comecei a ver diante de mim aquilo que me parecia um abismo.
E vivi tudo aquilo com uma intensidade enorme.
Só que não percebi que estava a adoecer.
Não comecei por sentir tristeza.
Não me lembro de pensar: estou deprimida.
O meu corpo falou de outra maneira.
Comecei a sentir partes da cabeça dormentes.
Não era a cabeça inteira e não acontecia sempre no mesmo lugar. A dormência mudava de zona.
Eu queria saber o que se passava comigo.
Fiz exames. Procurei médicos. Consultei inclusivamente um neurologista.
Procurava uma explicação física para aquilo que sentia.
E assim andei durante cerca de um ano.
Entretanto vieram os medicamentos.
Muitos medicamentos. 
Demasiados...
Hoje consigo olhar para trás e dizer uma coisa que naquela altura não conseguia perceber:
eu era uma zombie.
Estava profundamente medicada. Dopada. Existia, funcionava de alguma forma, mas não tinha verdadeira consciência da dimensão do estado em que me encontrava.
E há talvez uma das coisas mais assustadoras que aprendi com a doença mental: podemos estar profundamente doentes sem conseguirmos perceber até onde já chegámos.
Eu não olhava para mim e via uma mulher à beira de um precipício.
Mas estava.
E um dia tentei pôr fim à minha vida...
Sobrevivi.
E escrever esta palavra tantos anos depois continua a ter um peso difícil de explicar.
Sobrevivi!!...
Mas sobreviver e estar tratada são coisas muito diferentes.
Continuei.
De alguma forma, continuei.
Até ao dia em que alguém olhou verdadeiramente para mim.
O meu médico de família era também médico de Medicina do Trabalho na empresa onde eu trabalhava. Conhecia-me. Conhecia a mulher que eu tinha sido antes de tudo aquilo. Conhecia a minha energia, a minha forma de trabalhar, a minha capacidade, a minha vontade.
Numa consulta de Medicina do Trabalho olhou para mim e disse-me que não me reconhecia.
Eu tinha de me tratar.
E foi ele que me encaminhou para um amigo pessoal.
O professor Manuel Quartilho.
Entrei naquela primeira consulta cheia de medo.
Estava numa situação de enorme fragilidade e continuava sob o efeito de vários medicamentos.
Contei-lhe a minha história.
Contei-lhe aquele último ano. O nascimento do Henrique. O cansaço. A doença do senhor Pedro. O regresso ao trabalho. A fábrica. O medo. Os sintomas. Os médicos. Os exames. Os medicamentos.
Contei-lhe o percurso inteiro que me tinha levado até àquele sofá.
E ele ouviu-me.
Depois disse-me uma coisa que eu não estava à espera de ouvir.
Disse-me que eu estava numa situação muito frágil e que não havia químico nenhum que ele pudesse receitar-me que fizesse milagres.
Eu própria teria de fazer a minha parte.
Talvez tenha sido aí que começou o verdadeiro tratamento.
O professor Quartilho não me curou com uma frase extraordinária.
Não me entregou uma receita mágica.
Curou-me com conversa.
Muita conversa.
Consulta após consulta, foi mudando a forma como eu pensava. Foi desmontando coisas. Foi fazendo perguntas. Foi obrigando a minha cabeça a encontrar outros caminhos.
Mudou-me o chip.
Há uma ideia que ele repetia muitas vezes e que ficou comigo para sempre.
Os problemas só devem ocupar a nossa cabeça se tiverem solução. Se têm solução, são problemas e tratamos deles. Se não têm solução, temos de conseguir colocá-los de lado.
Foi assim que eu entendi aquelas palavras.
E delas retirei uma das maiores aprendizagens da minha vida:
o nosso foco tem de estar na solução do problema e não no problema.
Parece tão simples escrito assim. Não é??
Quando estamos mergulhados num problema, fazemos exatamente o contrário.
Pensamos nele de manhã. Pensamos nele à noite. Damos-lhe voltas. Imaginamos consequências. Repetimos conversas. Antecipamos desgraças. Alimentamo-lo com o nosso medo.
Sem percebermos, o problema deixa de ocupar um espaço na nossa cabeça e passa a ocupar a cabeça inteira.
O professor Quartilho ensinou-me a mudar a pergunta.
Em vez de ficar presa ao “porquê isto está a acontecer?”, comecei a procurar o:
“O que posso fazer perante isto?”
Se existe alguma coisa que eu possa fazer, é aí que devo colocar a minha energia.
Se não existe, pensar mais mil vezes sobre o assunto não altera o resultado.
Só me destrói.
Não aconteceu de um dia para o outro.
Foram muitas consultas.
Muitas conversas.
Muito trabalho dele.
E muito trabalho meu.
Foi preciso desmontar medos, culpas, pensamentos e formas de olhar para a vida que estavam profundamente instaladas em mim.
Até que, devagar, comecei a regressar.
Mas talvez nunca tenha regressado à mulher que era antes.
E ainda bem.
Regressei a mim de outra maneira.
Os problemas não desapareceram da minha vida.
Vieram outros. Muitos.
Alguns enormes.
A diferença é que já não encontraram a mesma mulher.
Ficou em mim aquela forma de pensar.
Perante aquilo que me acontece, procuro perceber o que posso fazer. Olho para os recursos que tenho. Tento encontrar um caminho. Faço à minha maneira, com aquilo que tenho disponível naquele momento.
E faço.
Quando existe solução, procuro-a.
Quando não existe, tento não entregar ao problema mais de mim do que aquilo que ele já levou.
Passaram muitos anos e continuo a falar no professor Quartilho.
Talvez ele nem imagine quantas vezes.
Falo nele quando encontro alguém fragilizado.
Falo nele quando sinto que alguém está perdido dentro de um problema.
Falo nele quando quero explicar que podemos receber ajuda, e devemos recebê-la, mas haverá sempre uma parte da caminhada que terá de ser nossa.
À nossa maneira.
Com os nossos recursos.
Ao nosso ritmo.
Mas nossa!...
Foi isso que ficou daquelas consultas.
Isso e um carinho imenso por aquele médico.
Há pessoas que passam pela nossa vida.
E há outras que, mesmo depois de saírem do nosso quotidiano, continuam de alguma maneira a caminhar connosco.
O professor Quartilho ficou.
Ficou na forma como penso.
Ficou na forma como enfrento os problemas.
Ficou na maneira como procuro soluções.
E, de alguma forma, ficou também nas palavras que digo a outras pessoas quando são elas que estão frágeis.
Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de alguém permanecer na vida de outra pessoa.
Aquilo que um dia ele me deu, num momento em que eu quase já não tinha nada para dar a mim própria, não ficou apenas comigo.
Eu passei a levá-lo aos outros.
Há muitos anos entrei num consultório cheia de medo, profundamente fragilizada e sem saber como regressar a mim.
Encontrei um médico que me disse que não havia químico nenhum capaz de fazer milagres.
E tinha razão.
Não havia.
O milagre não estava numa receita.
O milagre também não foi acordar um dia e descobrir que estava tudo bem.
O milagre foi alguém conseguir chegar à minha cabeça quando eu já estava perdida dentro dela.
Foi aprender que havia uma parte que dependia de mim.
Foi reaprender a pensar.
Foi recuperar os meus recursos.
Foi voltar a escolher.
Foi voltar a fazer.
Foi voltar a viver.

Por isso, tantos anos depois, se me perguntarem se acredito em milagres, não preciso de pensar muito na resposta.
Acredito.
O milagre da minha vida chama-se professor Manuel Quartilho.

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