TUDO ME TEM A MIM


Trabalho muito!
Muito mesmo...

Há dias em que trabalho de uma forma quase exaustiva. Horas seguidas, muitos quilómetros, decisões, problemas, pessoas, responsabilidades, imprevistos. Há sempre alguma coisa para fazer, alguma coisa para resolver, alguma coisa que depende de mim.
E, curiosamente, reconheço-me nisso...
Reconheço-me no trabalho. Na intensidade. Na entrega. Na vontade de fazer acontecer.
Não tenho uma relação infeliz com o trabalho. Pelo contrário. Muito daquilo que faço dá-me prazer. Gosto de construir, de criar, de resolver, de cuidar, de ver nascer coisas onde antes havia apenas uma ideia.
Há muito de mim naquilo que faço.
Mas há uma coisa que fui aprendendo ao longo do caminho:
não quero estar tão ocupada a construir a minha vida que me esqueça de a viver.
E talvez tenha sido por isso que comecei, quase instintivamente, a espalhar pequenos prazeres pelo caminho. Pequenos mimos. Não como recompensa. Não porque trabalhei muito e, portanto, mereço. Não!!...
Espalho-os como parte da viagem.
Às vezes basta-me uma escapadela à Fraga da Pena.
Outras vezes, ao Poço da Cesta.
Pode ser um café num sítio onde nunca estive. Uma conversa inesperada. Uma mesa diferente. Uma paisagem. Uma estrada que não conheço e que decido seguir só para descobrir onde vai dar.
Pode ser pegar em mim, ir até ao Piódão, caminhar até à Foz d'Égua, mergulhar naquela água e regressar novamente a pé.
E volto diferente...
Não porque tenha acontecido alguma coisa extraordinária.
Aconteceu apenas vida.
E isso, afinal, é extraordinário.
São pequenas pausas no tamanho.
Gigantes no propósito.
Gigantes no sentir.
São momentos que me acordam.
Que me devolvem energia.
Que me lembram que, no meio de tudo aquilo que tenho de fazer, também existo.
Durante muito tempo ensinaram-nos, de uma forma ou de outra, a adiar.
Primeiro trabalha.
Primeiro resolve.
Primeiro cumpre.
Primeiro trata dos outros.
Primeiro paga.
Primeiro constrói.
E depois, quando houver tempo, descansa.
Viaja.
Passeia.
Usufrui.
Vive.
Só há um pequeno problema.
Esse “depois” tem uma extraordinária capacidade de nunca chegar.
Porque haverá sempre mais alguma coisa para fazer.
Mais uma preocupação.
Mais uma responsabilidade.
Mais uma conta.
Mais um projeto.
Mais alguém a precisar de nós.
E eu não quero chegar ao fim de uma vida inteira de sementeira e perceber que passei demasiado tempo à espera da época da colheita.
Eu quero colher pelo caminho. Quero provar alguns dos frutos enquanto continuo a semear. Quero trabalhar e parar. Quero construir e contemplar.
Quero cansar-me por aquilo em que acredito e recuperar forças naquilo que me faz bem.
Quero continuar a fazer acontecer e, de vez em quando, simplesmente deixar acontecer.
Talvez seja isto que hoje entendo por equilíbrio. Não aquela divisão perfeita e impossível entre trabalho e lazer. Não uma vida organizada em compartimentos, como se numa gaveta guardássemos as obrigações e noutra a felicidade.
O meu equilíbrio é outro...
É encontrar prazer naquilo que sou e naquilo que faço.
É reconhecer-me em tudo.
Reconheço-me no trabalho.
Reconheço-me no descanso.
Reconheço-me nas minhas responsabilidades.
Reconheço-me nas pausas.
Reconheço-me nas horas que roubo à rotina.
Reconheço-me quando estou cansada e continuo.
E reconheço-me quando decido que, naquele momento, o mundo pode esperar meia hora porque eu quero simplesmente ficar ali.
A olhar.
A respirar.
A sentir.

Talvez tenha demorado algum tempo a perceber isto:
eu não preciso de fugir da minha vida para me encontrar.
Porque eu gosto da minha vida enquanto trabalho.
Gosto dela quando descanso.
Gosto dela quando produzo.
Gosto dela quando não faço absolutamente nada de útil.
Gosto dela quando sei exatamente para onde vou.
E gosto particularmente daqueles momentos em que faço um pequeno desvio e não faço ideia do que vou encontrar.
Eu estou em todos esses lugares.
Inteira!!...
Talvez seja por isso que esses pequenos prazeres tenham para mim um significado tão grande.
Eles não compensam a minha vida. Eles completam-na.
Não são uma fuga à rotina. São pequenas janelas que abro dentro dela para deixar entrar ar.
E fazem milagres. O milagre de me sentir viva. O milagre de perceber que também usufruo daquilo por que tanto trabalho.
O milagre de sentir que também colho parte daquilo que semeio.
Não quero uma vida permanentemente de férias. Provavelmente nem saberia o que fazer com ela.
Também não quero uma vida sem esforço, sem desafios ou sem responsabilidade.
Quero esta... Uma vida intensa.
Com dias demasiado cheios e outros mais vagarosos.
Com trabalho.
Com cansaço.
Com projetos.
Com problemas.
Com gargalhadas.
Com caminhadas.
Com mergulhos.
Com silêncios.
Com pessoas que chegam.
Com lugares que descubro.
Com estradas que decido seguir.
Com pequenas loucuras de uma hora que, às vezes, ficam na memória muito mais tempo do que semanas inteiras.
Porque o tamanho das coisas nunca determinou o tamanho daquilo que me fazem sentir.
Há momentos minúsculos capazes de ocupar lugares gigantes dentro de nós.
E talvez o segredo esteja precisamente aí:
construir uma vida onde não seja preciso esperar pelo intervalo para sermos felizes.
Onde haja prazer no caminho.
Onde possamos semear e colher.
Onde trabalhar não signifique deixar de viver e parar não signifique deixar de construir.
Onde sejamos capazes de olhar para aquilo que fazemos, para aquilo que escolhemos, para aquilo que recusamos, para aquilo que sentimos e reconhecer a nossa própria impressão digital.

Eu reconheço-me na minha vida.
Não apenas nas partes bonitas.
Em tudo.
Tudo tem a minha intensidade.
Tudo tem as minhas escolhas.
Tudo tem os meus erros.
Tudo tem a minha força.
Tudo tem a minha curiosidade.
Tudo tem a minha vontade.
Tudo tem a minha assinatura.

Tudo me tem a mim.

E talvez seja esta uma das maiores conquistas da minha vida:
não precisar de esperar por outra vida para ser feliz nesta.
Continuar a trabalhar.
Continuar a construir.
Continuar a semear.
Mas, sempre que puder, parar.
Respirar.
Olhar.
Mergulhar.
Sentir.
E colher.
Colher muito.

Porque um dia a caminhada termina.
E, quando esse dia chegar, não quero olhar para trás e ver apenas tudo aquilo que fiz.

Quero lembrar-me, sobretudo, de tudo aquilo que vivi enquanto fazia.

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